A preservação do Pantanal deve ser uma luta de todos
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JOSÉ CARLOS BIANCARDINI
Após a leitura do texto escrito no portal WWF Brasil, “Descaso com nascentes e rios ameaça o Pantanal”, do jornalista Aldem Bourscheit, que discorre sobre a situação crítica que o Pantanal de Mato Grosso, considerado Patrimônio da Humanidade, está vivendo, resolvi me manifestar.Como matogrossense, conhecedor e amante dessa região, tenho a obrigação - moral e cívica - de opinar sobre o assunto e expor a trágica realidade da região.
Uma coisa é fato: não precisa ir muito longe para ver que o texto de Bourscheit fala a mais triste das verdades. A degradação das nascentes e barramentos dos rios que fazem a bela paisagem do Pantanal está morrendo - e de forma rápida.
A Análise de Risco Ecológico da Bacia do Rio Paraguai, feita recentemente, mostra que metade da Bacia Pantaneira está sob alto e médio risco ambiental. Mas esses dados não são novidades para nós, que vivemos essa realidade e acompanhamos a degradação crescente nos últimos anos. É muito fácil constatar tudo isso, basta percorrer esses rios que já se observa a morte do Pantanal.
Estudos feitos por pesquisadores de Mato Grosso também revelam essa realidade. Sempre me interessei por esse assunto e faço questão de atualizar meus conhecimentos na área. Tenho feito a minha parte, uma luta quase que solitária. Desde a década de 80 busco apoio para salvar o Pantanal, que não é só meu, é de todos nós, ou melhor, como já disse, um dos maiores Patrimônios da Humanidade.
Nessa luta, já enviei ofício para vários representantes do Poder Público, inclusive, governadores. A maioria nem se deu ao trabalho de dar resposta. Já solicitei apoio da Rede Globo, me comunicando diretamente com o já falecido Roberto Marinho. Solicitei programas especiais do Globo Repórter, Globo Ecologia e afins... As reivindicações foram em vão.
O nosso Pantanal é usado mundialmente como chamariz de turistas. Afinal, é uma bela maravilha para se vender. São pacotes turísticos fantásticos de 20 dias de desfrute nas belezas pantaneiras. Porém, as pessoas que aqui vivem, e que necessitam dos rios da região para sobreviver, estão vendo essa beleza, fonte de trabalho e renda, se acabar dia após dia. Eu me enquadro como uma dessas pessoas.
Nasci e cresci conhecendo e amando as águas do Pantanal e me dói ver o descaso das autoridades e da própria comunidade, que se exime de culpa e de qualquer responsabilidade.
Governantes têm dado a sua contribuição para a morte do Pantanal, as construções demasiadas de hidrelétricas é uma dessas contribuições. A intenção aqui não é criticar atitudes desse ou daquele governo.
O progresso, obviamente, deve sim existir. Porém, de maneira equilibrada e sem que se faça uso indiscriminado dos recursos naturais, a todo custo, matando fauna e flora. E é isso que está acontecendo. Um verdadeiro absurdo, permitido por todos nós.
O Pantanal é a maior área de terras inundadas da América do Sul. O Rio Paraguai nasce em território brasileiro e sua bacia hidrográfica abrange uma área de 1.095.000 km2. A Bacia do Alto Rio Paraguai ocupa uma área de aproximadamente 600.000 km2. Sendo que o Pantanal corresponde por 147.629 km2 (41%). Isso significa que uma porção significativa da drenagem hidrográfica central do continente sul-americano depende da Bacia.
Temos que lembrar que é relevante a tomada dessa área para criação de gado, lavoura de todos os tipos, soja, milho, algodão e outras. Não há mais para onde se olhar que não tenha a mão do homem degradando o Pantanal, não existe mais limite para nada.
A situação também é crítica nas áreas urbanas, onde faltam estações de tratamento de esgoto. Não precisa ir muito longe, em Várzea Grande, cidade vizinha de Cuiabá, inexiste esse tipo de estação de tratamento de esgoto. Gostaria que me dissessem para onde vão todos esses dejetos, que jogamos fora, facilmente puxando a descarga.
Atrevo-me a dizer que tudo vai para os rios, principalmente o Rio Cuiabá. São 11 municípios banhados pelo Rio Cuiabá, que recebem dejetos de todos os lados. E tudo isso vai parar aonde? Afirmo sem ressalvas: o Pantanal virou a maior fossa de Mato Groso!
Existe outro ponto a ser citado. Por aqui, quase não se ouve falar em projetos de conservação e recuperação das áreas degradadas. Os poucos projetos que existem, a grande maioria são financiados por Organizações Não Governamentais. Atualmente os investimentos que nos cabem, são bilhões de reais, para a realização da Copa do Mundo, a Copa do Pantanal, como gostam de dizer.
É claro que toda essa Copa vai render dinheiro, turistas vão fazer fila e pagar caro para curtir o Pantanal, naqueles fantásticos pacotes que citei. Aí acaba a festa. Os turistas pegam seu caminho de volta, e nós ficamos aqui convivendo com a poluição, morte dos peixes, secagem dos leitos dos rios e destruição rápida do Pantanal.
Entende-se que não se pode coibir o desenvolvimento, porém ele deve acontecer de forma sustentável como previu a ECO/92. E, que, para existir um sistema completo de preservação e conservação do meio ambiente, é necessário pensar sempre na responsabilização dos causadores dos danos ambientais de maneira séria, efetiva e da forma mais ampla possível, conforme vem fazendo a Polícia Federal em relação aos desmatamentos.
O Ministério Público não pode se calar diante de todos esses fatos. O capítulo VI da Constituição Federal, em seu artigo 225, sacramenta: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e a coletividade o dever de defendê-lo, e preservá-lo para as futuras gerações”.
Diante dessa indignação, eu convido a todos os mato-grossenses, de alma e coração, assim como eu, para lutar pela vida do Pantanal, dos nossos peixes, rios e todas essas maravilhas que nos foram concedidas por graça Divina para apreciarmos e conservarmos, mas, sobretudo, amarmos.
Autoridades, governos, Ministério Público, cidadãos conscientes; enfim, todos: não podemos fechar os olhos para esse verdadeiro crime ambiental que acontece no Pantanal. Basta de impunidade! Chega de enrolação e de desculpas! A preservação de um Patrimônio da Humanidade, como o Pantanal, deve ser uma luta de todos nós.
José Carlos Biancardini, o "Cacalo", é empresário em Cuiabá, proprietário de uma das mais tradicionais peixarias da região, Cacalo Peixaria, e militante defensor do Pantanal.
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