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segunda-feira, 5 de março de 2012

Em meio a críticas, Fifa visita Brasil para fiscalizar obras da Copa de 2014



Jêrome Valcke e Aldo Rebelo tem dado declarações polêmicas nos últimos dias
Foto: AP




Uma comitiva da Fifa chegará ao Brasil nesta terça-feira para supervisionar o avanço das obras em estádios de seis das doze cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, dias após o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, ter se mostrado extremamente crítico, questionando a capacidade do país para organizar o evento.

» Veja fotos das obras e o que falta para os estádios da Copa de 2014

Cerca de 40 de especialistas da Fifa se juntarão a membros do Comitê Organizador Local (COL) para fiscalizar as obras das arenas de São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Cuiabá, Manaus e Natal.

"Essas inspeções têm como objetivo analisar e adequar o planejamento operacional dos estádios, que é extremamente complexo. O plano envolve esquema especial de tráfego, checagem de segurança e orientadores de público", explicou o gerente de operações em estádios do COL, Tiago Paes, num comunicado.

Em setembro, a comitiva da Fifa visitou os estádios das seis outras cidades-sede cotadas para receber partidas da Copa das Confederações de 2013, que servirá de ensaio geral para a Copa do Mundo, organizada no ano seguinte.

A delegação chegará ao Brasil em meio a uma troca de farpas entre o governo e a Fifa a respeito do atraso das obras e do adiamento da votação da Lei Geral da Copa.

Na sexta-feira, Valcke declarou que o Brasil precisava levar "um pontapé no traseiro" para avançar com a organização do evento.

Indignado, Aldo Rebelo rebateu ao afirmar que Valcke não seria mais aceito como interlocutor. O ministro do Esporte enviou nesta segunda-feira uma carta ao presidente da Fifa, Joseph Blatter, para solicitar oficialmente uma mudança do interlocutor da entidade com o governo brasileiro. "A interlocução do governo (brasileiro) não pode ser através de quem emite declarações intempestivas", destacou Rebelo, ao enfatizar que as palavras do secretário-geral foram "impertinentes e fora de lugar, usando expressões desapropriadas para tratar relações de interesse entre a secretaria e o país sede".



Na sexta-feira, Valcke chegou a acusar o Brasil de estar mais preocupado em vencer a Copa do que em organizá-la. "Estamos preocupados porque nada foi feito para preparar a recepção de tanta gente", criticou.

O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, chamou o francês de "vagabundo" e "boquirroto".

"Valcke já está excluído" como interlocutor entre a Fifa e o governo, afirmou o assessor em Hannover, na Alemanha, onde a presidente Dilma Roussef está fazendo uma visita oficial.

O secretário-geral chamou a reação do governo brasileiro às suas críticas de "infantil", e manteve sua intenção de viajar ao país no dia 12 de março, para fiscalizar o avanço das obras das arenas previstas para a Copa das Confederações.

Quatro cidades foram confirmadas para receber partidas da Copa das Federações: Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza, e o governo pretende incluir Recife e Salvador, o que apenas será possível se o avanço das obras for julgado satisfatório pela Fifa.

Apesar de o ministro dos esportes ter explicado que o cronograma está sendo respeitado na maioria das arenas, a comitiva da Fifa pode encontrar as obras paralisadas em Porto Alegre.

As reformas do estádio Beira-Rio estão paradas há mais de oito meses, devido a problemas de contrato entre o Internacional, clube proprietário da arena, e a construtora, que deve se reunir nesta segunda-feira com o banco Banrisul e a prefeitura de Porto Alegre para conseguir as garantias necessárias para obter o financiamento.

"Certamente, o Brasil terá 12 estádios prontos para a Copa da Fifa (alguns, provavelmente na véspera da abertura do evento). Mas as demais obras de infraestrutura, que do ponto de vista da população são as mais importantes, já que constituem o legado de longo prazo ao país, ainda patinam em sua maior parte", opinou José Roberto Bernasconi, presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) de São Paulo no site da entidade.

De acordo com Bernasconi, os setores que mais sofrem com a falta de planejamento são os aeroportos e as obras de mobilidade urbana.

A Fifa também pressiona o Brasil para que a seja aprovada o quanto antes a Lei Geral da Copa, que estabelece o marco geral do evento, depois de meses de discussões em torno de aspectos polêmicos, como a liberação da venda de bebidas alcoólicas e a questão do benefício da meia-entrada.

A votação foi adiada na semana passada, e deve acontecer nesta terça-feira. Depois deve ser aprovada pelo plenário da Câmara de Deputados e o Senado, antes de ser ratificada pela presidente Dilma Roussef.

A Fifa ainda pode, em teoria, retirar do Brasil o direito de sediar a Copa de 2014 até junho de 2012, mas Valcke descartou esta possibilidade na sexta-feira, ao explicar que "não existia Plano B".



Entenda a polêmica

Em entrevista concedida na sexta-feira (02/03), o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse que os organizadores do Mundial de 2014 precisavam de um "pontapé na bunda" para as obras da Copa do Mundo andarem no País, e afirmou que os preparativos brasileiros estão em "estado crítico".

As palavras não foram bem recebidas pelo governo brasileiro, e o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, afirmou no sábado (03/03) que não quer mais Valcke como interlocutor da Fifa para os assuntos relacionados à Copa de 2014. "As declarações são inaceitáveis, inadequadas para o governo brasileiro", disse Rebelo.

Não é de hoje que Valcke enfrenta rusgas com as autoridades brasileiras. Em comunicado publicado no site da Fifa, o secretário pediu rapidez com a aprovação da Lei Geral da Copa: "o texto deveria ter sido aprovado em 2007 e já estamos em 2012", declarou.

No meio do fogo cruzado, o presidente do Comitê Organizador Local (COL), Ricardo Teixeira, manteve discurso neutro e apenas ressaltou que tudo sairá como o planejado. "Em todo processo democrático as discussões devem ser amplas e sempre levar em conta os interesses do povo", disse Teixeira na nota.

Na segunda-feira (05/03), Aldo Rebelo enviou à Suíça uma carta solicitando um novo interlocutor entre o governo brasileiro e a entidade máxima do futebol mundial. De acordo com o ministro do Esporte, "a forma e o conteúdo das declarações escapam aos padrões aceitáveis de convivência harmônica entre um país soberano como o Brasil e uma organização internacional centenária como a Fifa".

No mesmo dia, Marco Maia, presidente da Câmara dos Deputados, também atacou as palavras de Valcke, chamando o secretário-geral da Fifa de "deselegante". "Foi uma declaração que merece na verdade é que a gente dê um chute daqui para lá de volta e que se repudie qualquer declaração desse nível", opinou Maia.

Posteriormente, Valcke publicou carta em que se desculpava pelo incidente que classificou como um mal entendido. Segundo o dirigente da Fifa, o que houve não passou de um erro de tradução, e o Brasil segue seguro como "única opção para sediar a Copa do Mundo".

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